Manaus Moderna expõe caos com escadas podres e alta de 36% na população de rua

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Bem antes do sol nascer, o porto da Manaus Moderna já está bastante movimentado, especialmente por causa da descarga de produtos que desembarcam nas balsas do local. Geralmente no início da semana, a embarcação Souza, de Anori, no interior do estado, atraca na margem do rio Negro, perto da Feira da Banana, após 18 horas de viagem. Desta vez ela veio na capacidade máxima de lotação com frutas, legumes, pescado e outros alimentos.

Ainda no escuro da madrugada e depois de uma viagem cansativa, o agricultor Elizeu Maia tem apenas um objetivo: vender toda a produção o mais rápido possível para que não haja perda mais uma vez. É que, sem qualquer local para armazenar as frutas e legumes assim que a viagem termina, muitas unidades estragam. Isso é recorrente. Mesmo perto de uma feira como a Manaus Moderna, a garantia de compra não é 100% em todas as viagens e o lucro que se esperava dá lugar ao prejuízo.

“Essa semana aí eu fiquei com a minha produção boiada, sem ter onde colocar. Eu tive que deixar um monte de mamão aí, e ele já está barato; uma caixa de 60 kg aqui está custando R$ 30 e não tinha para quem vender”, lamentou.
Caos no Porto da Manaus Moderna afeta feirantes e preocupa comerciantes

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Escadas podres e balsas deterioradas

 Essa é apenas uma das dificuldades e não está limitada aos produtores rurais do interior. Assim como Elizeu, existem muitos outros que lutam por espaço em um “trânsito” caótico sobre as balsas. Tem que prestar atenção ao redor, mas também no chão da embarcação, geralmente com buracos e diferenças de nível geradas por manutenções (muitas vezes) mal-acabadas. Os obstáculos acompanham o percurso até à rua. A condição das escadas é tão precária que os próprios feirantes se reuniram para mandar construir uma mais nova no local.

“A falta de estrutura é que não tem como os carregadores trazerem a carga para cá sem a escadaria. [O poder público] só fez até aqui e, quando está seco, lá na praia, temos que fazer escadas de madeira para eles subirem. Fizemos uma cota para construir essa outra escada aí, deu na faixa de R$ 1.500”, disse o feirante Eduardo Ferreira.

Durante o amanhecer, a briga por espaço sai das balsas e vai até à avenida Lourenço da Silva Braga. Caminhões carregados de frutas precisam estacionar e ocupam uma área consideravelmente grande ao redor da feira da Manaus Moderna. Uma das opções para motoristas de veículos menores é chegar mais cedo e, mesmo assim, uma prática se torna quase inevitável: parar em fila dupla para carregar o veículo. É cometer a infração ou perder um dia de trabalho.

“A gente chega aqui quatro horas, duas horas da manhã. Aí os caras, os marronzinhos [agentes de trânsito], chegavam entre sete e oito. Agora não, quando dá quatro horas, já estão aqui multando a gente e fica difícil de trabalhar assim”, disse o fretista João Paulo Fernandes.
Carregadores em situação de vulnerabilidade transportam caixas pesadas sem equipamentos de proteção individual

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Empresários cobram parcerias para reduzir custos

 A equipe de A CRÍTICA entrou em contato com o dono de uma das balsas atracadas na orla da Manaus Moderna. Ele preferiu não se identificar, mas relatou que há muitas despesas geradas com alvarás e licenças para funcionamento das balsas e não sobra margem de recursos para investir em melhorias das estruturas. Ele cobrou da Prefeitura de Manaus e do Governo do Amazonas parceria para fazer as mudanças.

Se passageiros e comerciantes sofrem no bolso, os carregadores levam o problema nas costas. São cargas e mais cargas todos os dias, uma pressão que representa prejuízos para a saúde deles e, ao mesmo tempo, a única fonte de renda. Se o produto cair ou for danificado, é descontado do valor que recebem no fim do trajeto. A especialista em Segurança do Trabalho, Maria Britto Jefres, disse que a falta de profissionalização começa na ausência de instalações para que possam usar.

“Vai ajudar muito para que possam descansar, se alimentar, tomar um banho. É uma questão de dignidade. Eles também precisam de apoio para criar um movimento de regularização onde trabalhem o justo e recebam o justo”, defendeu.

Quando o fim do dia chega, mais uma mudança de cenário no entorno do Porto da Manaus Moderna acontece. Aos poucos, aquela movimentação intensa vai se desfazendo e dando lugar a uma região mais deserta, mal iluminada e com uma constante sensação de insegurança. O pior é que não fica só no sentimento.

Situação precária na Manaus Moderna e entorno revela o aumento dos casos de moradores em situação de rua

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Segurança: saque e aumento de moradores de rua

 Uma loja náutica, na rua dos Barés, foi saqueada por um bando com mais de 20 pessoas em abril deste ano, de acordo com a Polícia Militar do Amazonas (PMAM). As imagens do circuito de segurança do estabelecimento mostraram os suspeitos derrubando um portão, uma grade e quebrando a vidraça do estabelecimento.

Foram roubados diversos produtos, entre eles motores de pequenas embarcações. As autoridades acreditam que criminosos convenceram usuários de drogas em situação de rua a participar da ação.

A equipe de A CRÍTICA conversou com o major da PMAM responsável pela região, Victor Moraes. Ele disse que os índices de criminalidade caíram proporcionalmente em relação ao número de prisões que bateram recorde nos primeiros meses do ano de 2026 em comparação com o ano anterior.

Informou também que os agentes atuam em maior número, com uso de novas tecnologias, incluindo o reconhecimento facial.

“Nós reduzimos índices de roubo nos ônibus, de celulares, de pessoas no centro e estabelecimentos comerciais. Contudo, temos a questão da sensação que não está sendo alcançada por conta do visual da área central. Temos muitos moradores de rua por causa das feiras, da entrada e saída de embarcações. Temos uma demanda gigantesca na parte social no centro”, explicou.
Projeto do novo Porto da Manaus Moderna coordenado pelo DNIT será chancelado pelo presidente Lula

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Aumento de pessoas em situação de rua

 A Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) reconhece a situação delicada. O primeiro trimestre de 2026 teve alta de 36% na quantidade de pessoas em situação de rua na capital amazonense, frente ao mesmo período de 2025. São mais de 3 mil homens e mulheres nessa situação, muitos também são dependentes químicos. Um deles falou com A CRÍTICA, sem se identificar. Ele afirmou que trabalha como carregador para sustentar o vício nas drogas.

“A minha saúde eu não sei, mas me sinto mal por causa do peso que carrego, sinto dores. Mas eu tenho que fazer porque é daqui que eu tenho que me manter para não estar mexendo nas coisas de ninguém”, disse.

A subsecretária da Semasc, Graça Prola, informou que o poder executivo possui estratégias, protocolos e políticas para atender quem está em situação de rua. As ações são desencadeadas em diversas zonas de Manaus, mas o trabalho enfrenta resistência e “compete” com o crime organizado.

“Muitas vezes impedem o nosso trabalho de forma mais célere com eles. É claro que o agravo das drogas é uma das maiores dificuldades e também a de aceitação das famílias desse público, que fica agravada pelo uso de álcool e outras drogas”, explicou.

O que está previsto?

A obra, de responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes, pretende mudar toda a região de embarque e desembarque, construir um terminal de espera e uma região para os veículos. Por enquanto não há prazos para o início da nova instalação.

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Redacao Portal Impacto

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