Tromba d’água agita barcos e assusta moradores na orla de Manaus
MANAUS – Uma tromba d’água foi registrada na tarde desta quarta-feira (25) no Rio Negro, na orla do porto de São Raimundo, na zona oeste de Manaus, durante chuva intensa. Vídeos gravados por celular mostram o fenômeno agitando embarcações e destruindo o telhado de um flutuante. Os autores das gravações estavam assustados.
A meteorologista Andrea Ramos não teve dúvidas ao identificar o que aparece nos vídeos. “No vídeo é uma tromba d’água, que é um fenômeno atmosférico caracterizado por uma coluna de ar em rotação que se estende da base de uma nuvem Cumulonimbus até a superfície da água. Visualmente, lembra um ‘funil’ conectado à nuvem, sugando água e formando um redemoinho visível. Pode ser considerada como um tornado sobre a água, embora normalmente seja menos intensa do que os tornados que ocorrem sobre terra firme”, explicou.
O meteorologista Leonardo Vergasta classificou o fenômeno como uma “frente de rajada”, também chamada de microexplosão.
“O fenômeno observado hoje na orla de Manaus, associado ao avanço de um núcleo de nuvens carregadas (Cumulonimbus — nuvens de tempestade) vindo do Oeste, é tecnicamente classificado como uma ‘frente de rajada’. Diferente de um tornado, esse evento é causado pelo movimento descendente do ar frio de dentro de uma nuvem de tempestade muito intensa”, explicou.
“Quando esse ar frio atinge a superfície do Rio Negro, ele se espalha para os lados em altíssima velocidade. Como não há obstáculos (prédios ou árvores) sobre o rio, o vento ganha força e atinge a orla com impacto máximo”, acrescentou Vergasta.
O meteorologista disse que a aparência de redemoinho pode ser enganosa. “A forte turbulência e o choque do ar frio com o ar quente da cidade criam movimentos giratórios de poeira e spray de água, o que visualmente lembra um redemoinho, mas a força principal vem de ventos lineares descendentes”.
A professora Juliane Querino, da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Interação Biosfera Atmosfera na Amazônia, corroborou a classificação de tromba d’água.
“É uma tromba d’água — um fenômeno meteorológico que se forma, geralmente, sobre os corpos hídricos, e é caracterizado por uma coluna de ar em rotação sobre a água. Esse fenômeno se forma a partir de uma nuvem tipo Cumulonimbus, que são nuvens associadas a tempestades. A combinação de uma atmosfera instável, com ar quente e úmido subindo rapidamente, pode formar um funil que, devido à rotação do vento, suga a água e o vapor em superfície”.
Os três especialistas são unânimes quanto ao perigo que o fenômeno representa, especialmente para quem está na água. “Os principais riscos associados são: rajadas de vento intensas, capazes de virar pequenas embarcações; ondulação súbita e violenta na superfície da água; chuva intensa localizada; e, em casos mais fortes, danos a estruturas próximas às margens, como telhados, galpões ou pequenas construções ribeirinhas”, afirmou Andrea Ramos.
Sobre a possibilidade de afundar uma embarcação, ela foi direta. “Sim, pode. Uma tromba d’água, dependendo da sua intensidade, é perigosa para embarcações, principalmente canoas, barcos de pequeno e médio porte e embarcações sem motor potente. O fenômeno pode virar barcos, arremessar pessoas na água, danificar embarcações ou mesmo criar ondas e redemoinhos inesperados. Por isso, a principal recomendação é manter distância imediata ao observar uma tromba d’água”.
Juliane Querino reforçou o alerta. “Pode sim afundar uma embarcação, dependendo da sua intensidade. Quando o fenômeno acontece, pode causar ventos fortes, ondas e chuva intensa localizada”.
Vergasta destacou ainda os riscos em terra. “Esse tipo de evento é perigoso por ser repentino. Na água, há risco de naufrágio de pequenas embarcações e rompimento de cabos de amarração. Na terra, destelhamento de casas, queda de árvores e interrupção no fornecimento de energia”.
A combinação de calor, umidade e grandes superfícies de água cria um ambiente favorável para esses eventos na capital amazonense.
“O que favorece esse fenômeno inclui calor e umidade, além da influência da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que gera instabilidade atmosférica e, assim, a formação dessas nuvens. As correntes de ar ascendentes e descendentes passam a girar, criando o funil que toca a superfície da água”, explicou Andrea Ramos.
Para Leonardo Vergasta, a geografia da cidade amplifica o impacto. “Devido ao calor e à alta umidade da nossa região, a formação dessas ‘nuvens gigantes’ (Cumulonimbus) é frequente, especialmente à tarde. A proximidade com os grandes rios ajuda a alimentar essas tempestades, tornando eventos de rajadas de vento comuns em nossa capital”.
Sobre a frequência do fenômeno na região, Juliane Querino pontuou que ele não chega a ser raro. “Sobre a região do Rio Negro, esses eventos não são comuns, mas também não são raríssimos. A alta umidade do ar, o calor intenso, as frequentes nuvens de tempestade e a grande superfície de água favorecem a formação de correntes de ar — condições que podem provocar instabilidade e a formação desse fenômeno”.
Fonte: Amazonas Atual
Foto: WhatsApp/Reprodução
