Drogarias do Amazonas são alvo de investigação por exigir CPF de clientes em troca de “descontos” suspeitos

Drogarias do Amazonas são alvo de investigação por exigir CPF de clientes em troca de “descontos” suspeitos

Notícias de Manaus – A prática cada vez mais comum de exigir o CPF de clientes em drogarias para oferecer “descontos” em medicamentos está sendo colocada sob escrutínio legal. Um Procedimento Coletivo foi instaurado na terça-feira (8) para investigar possíveis irregularidades nesse modelo de atendimento, após diversos relatos de consumidores no Amazonas e em outros estados do país. A ação foi publicada no Diário Oficial da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) e pode ter desdobramentos nacionais.

O foco da investigação é duplo: a legalidade do uso dos dados pessoais dos consumidores, especialmente informações sensíveis relacionadas à saúde, e a veracidade dos descontos oferecidos. Segundo relatos coletados, algumas drogarias estariam utilizando o pedido de CPF como estratégia para induzir o consumidor a um suposto benefício — que, na prática, pode não ser real.

De acordo com o defensor público Arlindo Gonçalves, coordenador da Defensoria Pública Digital, há indícios de que algumas farmácias informam valores artificiais para medicamentos, inflando o preço original para, em seguida, aplicar um “desconto” que apenas devolve o produto ao valor de mercado. “O consumidor acredita que está recebendo um benefício, mas está, na verdade, sendo induzido ao erro. Isso caracteriza um vício de consentimento”, afirmou.

A Defensoria também considera grave a possível coleta e uso indevido de dados pessoais sensíveis, como doenças, hábitos de consumo e até informações sobre conduta sexual — todos protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “Esses dados podem ser compartilhados ou vendidos a planos de saúde, empresas de publicidade e seguradoras. É um risco sério à privacidade”, alertou Arlindo.

Ainda segundo o defensor, o uso de dados pessoais deve ser transparente e consentido expressamente, como determina a LGPD. No entanto, há fortes indícios de que essa transparência não ocorre na maioria dos casos, deixando o consumidor vulnerável e sem controle sobre como suas informações são tratadas.

Como parte das diligências do Procedimento Coletivo, a DPE-AM irá notificar redes de farmácias e associações do setor farmacêutico, solicitando esclarecimentos sobre:

A obrigatoriedade do fornecimento do CPF para concessão de descontos;

A existência de alternativas para consumidores que não desejam fornecer seus dados;

A política de precificação adotada;

Os critérios para definição dos chamados “descontos”;

As práticas internas de armazenamento e uso de dados pessoais.

A investigação também se estende à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), responsável por definir o Preço Máximo ao Consumidor (PMC). A Defensoria quer saber se drogarias estão utilizando o PMC de forma manipulada para iludir o consumidor e induzi-lo a pensar que está recebendo um desconto generoso, quando na verdade o valor está dentro da margem comum de mercado.

Além disso, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) foi acionada para informar quais providências estão sendo tomadas diante de relatos de utilização indevida de dados pessoais por farmácias e drogarias em todo o país.

A iniciativa da Defensoria Pública se soma a outras ações já em curso no âmbito do Ministério Público Federal e da própria ANPD. Todas convergem para um mesmo ponto: a urgência de regulamentar e fiscalizar práticas comerciais que se aproveitam da coleta de dados pessoais em nome de falsos benefícios.

A expectativa é de que, com a investigação em andamento, empresas do setor farmacêutico adotem políticas mais transparentes e compatíveis com a legislação vigente. Ao mesmo tempo, o caso acende um alerta para os consumidores: o fornecimento de dados pessoais não pode ser uma condição imposta sem clareza e consentimento real.

Fonte: AM POST
Foto: Divulgação

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