Projeto cria hábito de leitura entre estudantes autistas em Manaus

Projeto cria hábito de leitura entre estudantes autistas em Manaus

MANAUS – O incentivo à leitura é motivo de orgulho para 18 estudantes com TEA (Transtorno do Espectro Autista) da Escola Estadual Professora Ruth Prestes Gonçalves, na zona norte de Manaus. Criado para estimular o hábito da leitura entre os alunos atendidos pela Sala de Recursos Multifuncional, o projeto Meta de Leitura premiou, nesta sexta-feira (31), os estudantes que superaram a meta estabelecida. Um dos participantes chegou a ler 14 livros, todos de autores amazonenses.

Idealizado pela professora Leonice Paolla Amador, o projeto nasceu de uma situação inesperada. Enquanto organizava a Sala de Recursos, ela encontrou 20 caixas com livros enviados para a escola. Ao abrir o material, descobriu que todas as obras eram de escritores amazonenses. A descoberta despertou a ideia de criar um projeto que unisse incentivo à leitura, inclusão e valorização da literatura produzida no estado.

Inicialmente, a proposta foi desenvolvida com estudantes da terceira série do ensino médio atendidos pela educação especial. Após os primeiros resultados positivos, a iniciativa foi ampliada para os demais alunos da Sala de Recursos Multifuncional. Hoje, o projeto reúne estudantes autistas e tem como principal objetivo mostrar que, quando recebem acompanhamento adequado e têm seu tempo respeitado, são capazes de alcançar resultados surpreendentes. “O projeto era mostrar para a nossa escola que os alunos PCDs são capazes. No tempo deles, no momento deles, na hora deles, mas eles são capazes”.

Realidade de cada aluno

A professora adaptou a metodologia de acordo com o desenvolvimento de cada estudante. As primeiras leituras foram com livros de apenas dez páginas. À medida que os alunos evoluíam, passaram para obras de 20, 30 páginas, chegando atualmente a livros com cerca de 250 páginas.

Todo o processo é acompanhado de perto. Além da leitura, os estudantes contam o que compreenderam da história, produzem textos e têm o desenvolvimento registrado por meio de fotos e vídeos. Segundo a educadora, mais do que avaliar se a interpretação está exatamente igual ao texto, o importante é compreender como cada aluno constrói esse entendimento.

Outro desafio foi trabalhar com estudantes do ensino médio que ainda apresentavam dificuldades na alfabetização. Alguns eram considerados analfabetos funcionais, exigindo estratégias diferentes para despertar o interesse pela leitura.

Leonice Paolla: ideia de crir projeto de leitura e resultado surpreendente (Foto: Feifiane Ramos/AM ATUAL)
Leonice Paolla: ideia de crir projeto de leitura e resultado surpreendente (Foto: Feifiane Ramos/AM ATUAL)

Para tornar as aulas mais dinâmicas, Leonice apostou em atividades coletivas. Enquanto um aluno faz a leitura em voz alta, outro explica o que entendeu. Pequenos incentivos também ajudam a manter a atenção durante os encontros no contraturno escolar. “Eu tenho que ser dinâmica. Um lê, o outro explica, depois troca. Tem pirulito, bombom. Porque para manter um aluno com TDAH uma hora sentado, exige criatividade”, disse

Resultados além da escola

Segundo a professora, as mudanças não ficaram restritas ao ambiente escolar. As famílias passaram a relatar que os estudantes desenvolveram o hábito da leitura também em casa e em situações do cotidiano, como durante consultas médicas, na igreja e até mesmo lendo placas pelas ruas.

“Quem lê, fala bem, escreve bem e viaja sem ter dinheiro”, resume Leonice ao explicar o impacto que a leitura tem provocado na vida dos alunos.

Ela destaca que o envolvimento das famílias foi fundamental para o sucesso da iniciativa. Um grupo criado com os pais permite que todas as atividades desenvolvidas na Sala de Recursos sejam compartilhadas diariamente, fortalecendo a parceria entre escola e responsáveis.

A aproximação também fez com que a professora conhecesse de perto a realidade enfrentada por muitas famílias. Segundo ela, grande parte dos estudantes é acompanhada por mães solo, que dedicam praticamente todo o tempo aos filhos. “Às vezes, a gente acha que tem problemas, mas, quando escuta essas mães, percebe que o nosso problema é tão pequeno perto do delas”, contou.

Além do acompanhamento pedagógico, Leonice afirma que procura ajudar essas famílias sempre que possível, orientando e encaminhando algumas delas para atendimento psicológico ou outros serviços quando identifica essa necessidade.

Livros da Sala de Recursos Multifuncional: literatura amazonense para alunos com TDAH (Foto: Feifiane Ramos/AM ATUAL)
Livros da Sala de Recursos Multifuncional: literatura amazonense para alunos com TDAH (Foto: Feifiane Ramos/AM ATUAL)

Muito além das medalhas

Para a professora, o maior reconhecimento não está apenas nas medalhas entregues aos estudantes, mas na mudança de comportamento observada ao longo do projeto. Ela afirma que alunos que antes permaneciam mais isolados hoje participam das atividades escolares com mais confiança e protagonismo. “Eu digo sempre que eles estavam lá atrás. Hoje eu já estou trazendo eles para o meio da sala. Até o término do ano letivo, eles já estarão nas primeiras filas”.

A educadora, que atua há anos na educação especial e foi vencedora do prêmio Educadores que Transformam, também defende que experiências como essa precisam ser ampliadas nas escolas públicas. Na avaliação dela, ainda faltam investimentos, formação continuada para os profissionais e políticas públicas voltadas à inclusão.

Apesar dos desafios, Leonice acredita que o projeto cumpriu seu principal objetivo: mostrar que o potencial dos estudantes deve ser reconhecido para além do diagnóstico.

Gosto por livros

Dezoito estudantes participaram do projeto Meta de Leitura no primeiro semestre. Entre os alunos premiados, o destaque foi Pedro Yuri Batista Pereira, do 2º ano 3, que alcançou o primeiro lugar da turma após ler 14 livros.

Também tiveram destaque Isaque Nascimento Silva, do 1º ano 4, com 13 livros; Pietro Cardoso Coelho, do 3º ano 3, e Arlindo Christian Gomes da Silva, do 3º ano 7, ambos com 12 livros; além de David Gabriel da Costa Silva, do 1º ano 3, também com 12 obras lidas.

No turno matutino, também foram premiados Daniel de Oliveira Andrade, do 1º ano 2, com sete livros; Rebeca Brito do Nascimento, do 1º ano 4, com sete livros; Richard Clayderman da Silva Brito, do 1º ano 5, com nove livros; Samuel Victor Melo da Silva, do 2º ano 1, com três livros; Antônio Vinicius Santos da Silva, do 2º ano 4, com cinco livros; Gustavo Gabriel Mello Monteiro e Andrew Ariel Gemaque da Silva, ambos do 2º ano 4 e 2º ano 5, respectivamente, com dez livros cada.

No turno vespertino, além de Pedro Yuri, foram reconhecidos Leonan Martins Cunha, do 1º ano 4, com seis livros; Evelyn Samyra dos Santos Pereira, do 1º ano 4, com três livros; Emanuel Modesto Feitoza, do 2º ano 1, com dez livros; e Elides Pereira Oliveira, do 3º ano 4, com nove livros.

As obras utilizadas no projeto foram de escritores amazonenses, como Leyla Martins Leong, Elson José Bentes Farias, Ana Peixoto e Thiago de Mello, além de títulos de literatura de cordel. Segundo a professora Leonice Paolla Amador, a escolha buscou incentivar a leitura e aproximar os estudantes da produção literária do próprio estado.

Acompanhamento familiar

Helaing Ribeiro da Silva, mãe de Richard Clayderman, 16 anos, relata que acompanhou a evolução do filho durante o projeto. O estudante, do 1º ano 5, ficou em segundo lugar na turma e leu nove livros.

Para ela, a iniciativa mostra que estudantes com Transtorno do Espectro Autista podem desenvolver diferentes habilidades quando recebem incentivo e acompanhamento adequado.

Helaing Ribeiro da Silva, mãe do Richard Clayderman (Foto: Feifiane Ramos/AM ATUAL )

“Eu estou com muito orgulho dele, só orgulho. Não tenho o que dizer do meu filho, ele é um filho maravilhoso. Agradeço à professora Leonice, que está fazendo esse trabalho com os livros e com as crianças. Eles têm suas particularidades, mas isso não quer dizer que não são capazes. Eles são capazes, com certeza. Só tenho a agradecer por ele estar aqui hoje, escrevendo e participando desse projeto. Estou muito orgulhosa do meu filho e das outras crianças também. É só alegria e orgulho para os pais”, disse.

Segundo Elaine, o interesse do filho pela leitura aumentou após a participação na iniciativa. Ela conta que Richard passou a compartilhar em casa as histórias que lia. “Ele está lendo mais, adora ler. Hoje eu vejo que ele já gostava de ler, mas evoluiu bastante. Todos os dias ele chega e diz: ‘Mamãe, eu gostei desse livro, eu gostei dessa história’.”

A mãe também defende que projetos voltados à educação especial sejam ampliados dentro das escolas. “Podia ter mais projetos como esse na escola, principalmente para essas crianças. Eu não falo nem que é problema ou distúrbio, eles vieram com isso. Às vezes, essa limitação nem é uma limitação. São meninos maravilhosos, educados. Quem dera nós pudéssemos ter mil alunos iguais ao Richard em sala de aula”, afirmou.

Fonte: Amazonas Atual
Foto: Feifiane Ramos/ AM ATUAL

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